Análise do filme A Professora de Piano (com spoilers) de Michael Haneke
Uma análise psicanalítica com spoilers do filme A Professora de Piano (The Piano Teacher), de Michael Haneke, sobre perversão, desejo, controle, falta e a dificuldade de Erika em se relacionar com o outro.

Uma análise psicanalítica (COM SPOILERS) do filme A Professora de Piano (The Piano Teacher), de Michael Haneke, sobre perversão, desejo, controle, falta e a dificuldade de Erika em se relacionar com o outro.
O filme A Professora de Piano (The Piano Teacher, 2001) de Michael Haneke nos apresenta a vida de Erika (Isabelle Huppert), uma professora de piano cuja existência é marcada por disciplina, frieza e por uma mãe assustadoramente dominadora e sufocante. Imersa em uma aparente fantasia de controle absoluto sobre a própria vida, ela é lentamente seduzida por um de seus alunos, Walter (Benoît Magimel), que convida a professora a uma relação de proximidade, algo que, até então, era algo exclusivo entre ela e sua mãe. Alguns psicanalistas dirão que este é um filme que permite falar sobre a perversão (um tipo de estrutura psíquica, assim como a neurose e a psicose). No senso comum a perversão é frequentemente sinônimo de perversidade, maldade ou crueldade mas, psicanaliticamente falando, a maldade pode estar presente em qualquer estrutura clínica, seja ela neurose, psicose ou perversão. Nesta reflexão sobre o filme, a ideia é trazer reflexões acerca de como Erika se relaciona com o mundo a partir dessa estrutura perversa, estrutura cuja marca é justamente o que chamamos de “fetiche”, cuja função é sempre desmentir a castração (ou seja, a sensação de vulnerabilidade, de limite, de Falta que todos nós, os humanos, estamos sujeitos a) Ao mesmo tempo em que ocupa o lugar de uma professora extremamente disciplinada e exigente, Erika frequenta cinemas pornográficos e observa voyeristicamente (fetiche que consiste em espiar, observar e olhar outros sem ser visto) outras pessoas se relacionando sexualmente, sem o consentimento delas. Ela não tem uma sexualidade dita “normal”. Sua sexualidade é marcada por desvios bastante fora da curva, fetiches estranhos e ela parece precisar ter, sempre, um controle absoluto da cena sexual em que se envolve. Como Erika vive sua relação com seu desejo, com seu corpo e com o outro? Na narrativa, vemos o quanto tudo isso é marcado por controle, ou melhor, por uma fantasia de controle e dominação sobre o que se quer e sobre o que o outro deve ou não fazer com ela. É ela que determina, de maneira fechada em suas próprias fantasias, como o outro deve e pode se aproximar dela. O que vemos em Erika é uma tentativa de organizar o encontro com o desejo através de cenas cuidadosamente controladas, nas quais o risco de um encontro imprevisível (ou desencontro...) com o outro pode ser reduzido, já que tudo já foi pré combinado e roteirizado por ela mesma. Antes de conhecer seu aluno Walter, Erika só sustentava desejos de proximidade e intimidade sexual à distância, frequentando cinemas pornográficos, olhando e assistindo os filmes com toda a distância íntima que ela necessitava do outro. Seu ato de “olhar o outro” sem estabelecer uma relação próxima permite que ela não precise lidar com a realidade de um encontro comum e real com alguém. Até esse momento do filme, seu prazer não dependia do contato direto com ninguém, ela era autosuficente, mas Walter, seu aluno, oferece a Erika justamente a intimidade e a proximidade que ela em algum lugar secreto de si, desejava. Com Freud e Lacan, vemos que o desejo humano não pode ser reduzido a uma necessidade biológica. Ele está articulado ao Outro, ao olhar, à linguagem e à fantasia. É por isso que não desejamos qualquer pessoa, qualquer ideal, qualquer objeto…Tudo tem um cenário no qual cada Desejo, sempre singular, se ancora para desejar. É interessante pensar também na relação primária materna de Erika. Ela e sua mãe mantém uma relação muito próxima e extremamente tóxica. O pai de Erika não aparece no filme e é apenas mencionado como alguém que está distante, internado e enlouquecido em um sanatório. Erika não tem uma relação saudável com sua mãe. Quando ela deseja alguém - um terceiro - em sua vida, sua mãe não dá trégua e também parece impossível para Erika se relacionar sem tanto desejo de controle. Erika vive uma relação incestuosa com a mãe - não no sentido sexual, genital, mas no sentido psicanalítico, ou seja, uma relação se configura como incesto quando parece haver nenhum espaço para a entrada de um terceiro. Essa é a tristeza do filme: para ela(s), deixar alguém se aproximar é quase impossível - a menos que ela possa controlar TUDO. O outro, Walter, no caso, deseja por si mesmo, tem desejo próprio, tem demandas próprias e Erika, ao tentar impor seu fetiche, sua cena sexual, tenta recusar isso, desmentir isso para si mesma. Mas Walter não é alguém que se deixa dominar e, infelizmente, além disso, ele acaba a violentando, fazendo o que ela não queria e gerando na personagem um trauma insuperável nessa tentativa de relação que eles tiveram. Erika se angustia profundamente com esse encontro porque ele invadiu sua organização psíquica. A maneira como ela tinha controle sobre seus desejos e fantasias é abalado por Walter. A experiência que ela vive, agora, é real demais para que ela possa controlar. E isso produz angústia. Reitero que a sexualidade de Erika não é simplesmente “perversa” porque contém práticas sexuais consideradas desviantes. O que importa é a função que essas práticas desempenham em sua economia psíquica. O que está em jogo é uma tentativa de organizar a relação com o desejo através do controle da cena, do controle do corpo e do controle do outro, como se a vida pudesse ser manejada e vivida dessa forma “sem castração”, sem conflito, sem falta. É isso que escancara uma estrutura de perversão. Nesse sentido, A Professora de Piano é menos um filme sobre uma mulher sexualmente “anormal” do que sobre uma personagem que parece não conseguir sustentar o encontro com o outro sem transformá-lo em uma cena controlável. Haneke constrói, assim, uma personagem que está dividida entre a distância e a tentativa de contato íntimo; entre o controle da cena e aquilo que escapa a qualquer roteiro. Para alguns, se relacionar com o outro é mais fácil, para outros é mais difícil e para alguns outros é quase impossível. O filme deixa o espectador com bastante pena de Érika, que, sem dúvida, não desejava apenas a distância e o abandono, mas também a proximidade e o acolhimento humano de Walter. Pena que ele falhou e, ironicamente, ele foi o mau da história, e não a pessoa que, supostamente, era a perversa (Erika). Essa é a maior prova de que o senso comum nem sempre tem razão em seus ditados…