Resenha do filme "Toxic"
Crítica e análise do filme Toxic de Saulė Bliuvaitė (Mubi Brasil), abordando juventude, psicanálise, identidade, abandono social, negligência emocional, vazio existencial, indústria da moda e busca por pertencimento.

Análise psicológica e simbólica do filme Toxic (Saulė Bliuvaitė), explorando juventude, abandono social, busca por identidade, vazio existencial e a necessidade de validação.
O filme Toxic, de Saulė Bliuvaitė (disponível na Mubi Brasil) não é um filme para todos. Isso porque os artifícios cinematográficos foram pensados para mergulhar o espectador numa atmosfera densa de podridão, não apenas externa, mas interna.

Ambientado em uma suja e cansada cidade industrial lituana onde duas garotas se inscrevem numa academia de modelos sonhando deixar a cidade e o tédio que as consome neste não-lugar.
Através deste contexto, o filme trabalha temas simbólicos como juventude (símbolo de futuro, horizontes e possibilidades), tédio, vazio, falta de perspectiva e os efeitos das negligências e do abandono social e cultural nas subjetividades. Como construir uma identidade e descobrir desejos e interesses quando só há espaço para pensar em como fugir do próprio ambiente onde se vive?
A psicanálise nos lembra que quando estamos vulneráveis demais, qualquer miragem pode se tornar objeto de investimento psíquico, mesmo que isso resulte em mais dor e inadequação.
Num mundo que alimenta cada vez mais as aparências em detrimento de outras importâncias, Toxic traz uma verdade abjeta e real sobre quais meios algumas pessoas (principalmente as mais jovens) utilizam para serem vistas e validadas.
Como não comentar a capa do filme? Os “olhos esburacados” sugerem um olhar sem horizonte: quando não há futuro, qualquer promessa, por mais absurda que pareça, pode ser tomada como tapa buraco, uma esperança para um nascimento, um vir-a-ser. Toda escolha desesperada carrega em si uma emergência e uma esperança…
Toxic é menos sobre o mundo da moda em si e mais sobre a precariedade existencial que vivemos quando crescemos sem bases formativas fundamentais, sem projetos e em completa negligência emocional e social. Quando a vida de um jovem é repleta de “buracos” e privações, o que aparece é uma subjetividade que tenta se agarrar a qualquer coisa a constitua, mesmo que em forma de auto abuso ou sacrifício.